19 de setembro de 2007

Ícaros

Domingo à tarde, incham as ruas da cidade com magotes de casais desenxabidos. Vêm empanturrar-se nas pastelarias e adquirir os últimos artigos em promoção e da última moda ou simplesmente deambularem como moscas tontas para matarem à paulada o tempo. Depois à frente da TV afundam-se no sofá de couro (ou imitação vulgar).
Entre a garfada de esparguete e o golo de vinho tinto, os espectadores, perante estes tempos inimagináveis de atrocidades, soltam comentários esganiçados de consternação e piedade perante as imagens de famintos ossudos e injustiçados em poças coalhadas de sangue. Criticam o gatuno do árbitro ou o corrupto do político beijoqueiro de velhotas reumáticas e miúdos de bochechas escarlates... A noite do telejornal é assim rica em emoções fortes! E afinal não é do que andamos todos à procura?
Não importa a espécie, todos querem de qualquer modo, se sentirem e VIVEREM. O problema é que se uns se contentam em colher migalhas de uma felicidade amorfa e, nesta existência suada e imprevisível caminham de sorrisos radiantes, atropelados entre os dentes, simultaneamente que os olhinhos luzem nas órbitas por qualquer conquistazinha. Outros estão condenados à ambição desmedida de Ícaro, a de se quererem elevar mais alto independentemente dos gritos agonizantes e fatais que daí possam resultar. Alimenta-os a necessidade de sentirem o sangue a escorrer espesso, ardente e sufocante nas veias, por quererem atingir por um instante o auge.
Ter medo afinal de quê? Não temos já um determinado prazo de validade tatuado em brasa desde a concepção? Se vamos morrer de qualquer modo porque não com a retina engasgada de doces e suculentas imagens e a com a nossa carne exalando histórias prenhes de néctares e perfumes????????????

30 de agosto de 2007

Diálogo

Ela- Fala-me de ti!
Ele- Tenho-me perdido nas terras de nenhures e algures... Acho que até te já vi por lá... Desconheço por vezes os corpos que passam por mim. As mentes que são apêndices destes fogem imediatamente de mim quando tento explorá-las para quem sabe um dia, vir-me nelas a achar-me... O máximo que consigo fazer é resgatar-lhes uma peça ou uma chave. Gosto de fazer amor no meio de flores rasteiras azuis. O perfume da parte do corpo de algumas mulheres é para mim ópio..
Ela- Um vício a que sucumbes?
Ele- A que que me devoto completa e religiosamente...
Ela- Sabes o nome de todas elas?
Ele- Não, a maior parte delas funciona como instrumentos descartáveis. Apenas procuro o prazer, o sabor e o seu cheiro momentâneos.
Ela- Mentes-lhes?
Ele- Acho que só tenho vocação para mentir e enganar este tipo a que chamo "eu" e que me acena ao espelho, mas tenho evitado...
Ela- O quê? Espelhos?
Ele- Sim e as dívidas também..
Ela- Jogas?
Ele- Comigo e com os corpos.
Ela- Porquê?
Ele- Só quero viver, descobrir, extasiar, profanar e possuir para que a morte não apague por completo a minha existência espalho-me e semeio-me por aí. Acreditas nos acasos e coincidências?
Ela- Sim, deixemos a crença no destino para as marionetas do tempo que são a maior parte desses seres que somente existem e sobrevivem...

Porquê ter a chave se a porta está aberta?

Portas entreabertas...

Sempre tive um fascínio por portas...
Falo de algumas que se encontram em algumas cidades como Lisboa, Roma, Barcelona, entre outras..
Portas monumentais? Imponentes? Antigas?Históricas?Pequenas?Frageis?Concebidas em vidro?Madeira?Aço?Iluminadas?Obscuras...?
Mais do que um dado traço artístico ou histórico, mais que a beleza ou originalidade de certas portas atrai -me sim o seu interior... Fico entregue a uma insaciável curiosidade...
Que inquilinos deambulam atrás delas? Que tipo de corações pulam no seu conteúdo? Que pecados se entranham? Que gargalhadas se abafam? Quais as histórias escorrem por essas paredes alheias?
Quando por acaso algum desses inquilinos no preciso momento em que passo, destranca uma dessas portas e a abre não hesito em espreitar...

Existirá alguém que nunca tenha ousado espreitar uma porta entreaberta?