1 de fevereiro de 2008

Impulsos

Sentia-se presa dentro da sua carne, sufocada com aquela vida amarga, entontecida pelo tédio, enjoada com o odor revoltante do suor desse homem que ressonava a seu lado… um desconhecido a quem chamava marido…Também ela não se reconhecia na imagem que lhe acenava ao espelho. As primeiras rugas teimavam a evidenciar-se exibindo uma vida que não escolhera, cujas malhas a tinham enredado. Agora tomara consciência dos anos volvidas e do vazio que tinha…Vagamente da sua memoria emergiam reminiscências do que fora, do ser atraente que amarrava os olhares daqueles que a rodeavam. Agora estava cansada de não voltarem o olhar para Ela, de se sentir anónima… Precisava de se sentir de novo desejada, de saborear o travo adoçicado no paladar a Poder..o poder de fazer os outros se virarem por sua causa…
Naquela noite, um estranho calor envolvia-lhe a pele, assediava-lhe a mente.. nao conseguia dormir por mais que tentasse ou desejasse… Ja o seu marido estava imerso num sono profundo e ruidoso, ocupando a maior parte da cama… Queria gritar, queria viajar, queria VIVER.
A combinação de renda desgasta pelo tempo, ficou amarrotada no chão do quarto, transbordando um desejo profundo de abandonar essa rotina diária angustiante. Consciente e silenciosamente vestiu-se e saiu. A escuridão da noite espessa e brilhante segredava-lhe promessas irresistíveis de prazeres incandescentes e obscuros.
Um vestido negro acetinado contornava-lhe o corpo, os lábios estavam cuidadosamente pintados, o rosto inquieto, o olhar profundo.. Não sabia o que desejava ou fingia-o… Será que nessa noite, alguém voltaria o olhar procurando o seu? Despertaria a sua carne algum desejo de toque? Quereria alguém devorar-lhe a alma? Enquanto sorvia o gin tónico naquele lugar atormentado por fumo de cigarros cansados, algo lhe tocou invisivelmente a pele…Eram olhares sedentos e famintos de seres masculinos que a observavam curiosamente… Em vez de se sentir receosa ou retraída, uma estranha segurança e sensação de poder arrastou-se dentro das suas veias. Propositadamente cruzou o olhar com um desses seres. A sua carne elegeu um deles. Seria aquele a sua vítima. Deveria ser assim que se sente um predador antes de devorar a sua presa, que será a sua refeição. Olhares entrecruzados, corpos aproximam-se, algumas palavras trocadas, muda-se o cenário, uma cama será agora o palco… Outrora seria incapaz de imaginar que ela encarnaria a personagem que veste naquele momento.. como era deliciosamente incrível aquela sensação de dominar, enfeitiçar um ser, po-lo à sua mercê, louco de desejo, ludibriá-lo…fazê-lo implorar por mais… E foi tão fácil! Mas isso não lhe bastava, queria marcá-lo, carne, mente até ao osso, violentá-lo…

23 de janeiro de 2008

Piano...

Pudesse ter sido eu concebida em branco e em preto.. Ser as teclas que intimamente tu tocas com a suavidade e intensidade dos teus dedos, deixando esfumar pedacinhos incandescentes da tua alma para dentro de mim…Pudesse ser eu as teclas nas quais tu deliras, tu te derramas, tu te excitas...
Como eu queria ser o piano que majestosamente está no centro do teu espaço, perdão do teu reino e assim poder incessante e ansiosamente aguardar que a qualquer fragmento de segundo viesses sentar-te junto de mim… Viesses para me tocares, arrastando a tua voz açucarada, arrancando de mim todos os decibéis que quisesses.. estridentes, graves e agudos conforme as tuas emoções que correm em estado liquido nas tuas veias...Pudesse ser o teu piano para poder saber tudo de ti, devorar tudo o que há em ti.

..there are images that realy last seconds but will be forever kepted in her memory, closed inside her white skin like a invisible tatoo...

11 de novembro de 2007

Play...

A...Arcade Fire.. PJ Harvey...Radiohead... Bloc Party...Sigur Rós..expresso devotamente a minha eterna gratidão pela sua existência..por me acompanharem nas palavras que derramo de dentro da minha linfa.. por penetrarem meus timpanos em todas as minhas viagens terrestes e extraterrestes..por testemunharem os meus actos de amor, loucuras, devaneios, tatuagens..por esperarem comigo a chegada de Morfeu, o deus do sono naquelas noites em que nao consigo dormir..
PLAY é a garantia de açucarados momentos em que mato o tédio e o decorrer angustiante do tempo..
Obrigada!