Trancaram a porta. Empurra-a contra os azulejos pardos e puxa-a para si sentindo o seu hálito quente…Imediatamente encosta os seus lábios aos d’Ela abrindo-os abruptamente e enfia a língua sôfrega na sua boca, disposta a lamber, engolir e devorar tudo o que lá encontrasse. Queria sussurrar-lhe, gritar-lhe o que sentia assediar-lhe a mente e o corpo nesse preciso instante através daquele acto inconsequente e húmido. O beijo. Aquele beijo, sua grafia de bocas e copulação primitiva de línguas. Esse ritual onde se misturam as salivas (com seus exércitos de germes) e se cospe por vezes, pedacinhos substanciais das almas dos seres em palco.
Porque o desejo é endovenoso, coagula, aquece e as enormidades das carnes não escolhem espaços, logo as mentes e as carnes se precipitam em direcção ao prazer... Adulteram-se os olhos, incendeiam-se aguadas as peles com aquelas artérias inchadas e palpitantes que imploram: "Bite-me, please bite-me and don't stop!".
Lá fora, entre o tilintar de copos, as fumaças de cigarros sonolentos e odores de corpos suados e abusados nesse café do fim da rua, ele esperava-as impaciente entregue ao eterno dilema de “Porque razão é que Elas vão sempre juntas à casa de banho?!"
5 de novembro de 2007
22 de outubro de 2007
Curiosidades...
A primeira vez que A viu, Ela estava completamente ausente embora o seu corpo preenchesse o banco do jardim. Pedacinhos da sua mente tropeçavam na estratosfera entrelaçados às palavras do livro que digeria. Nem notou que Ele a observava com curiosidade de louco. O que mais puxou avidamente olhar d'Ele, foram as suas languidas veias que sobressaíam no manto branco da pele. Apaixonou-se por essa imagem...rios pulsantes de vida percorriam-lhe o corpo arrastando em estado liquido odores de histórias intensamente respiradas. As veias d’Ela agitavam-se assim como se fizessem troça do desejo d’Ele.
O amor pode nascer apenas de uma insaciável curiosidade…
O amor pode nascer apenas de uma insaciável curiosidade…
11 de outubro de 2007
Armas em punho
Sempre tivemos medo delas...Das palavras. São perigosas, traiçoeiras... Daí que se entenda o trabalho obssessivo das censuras, para não deixar que uma dada palavra escape das malhas da repressão. O uso de certas palavras poderão atingir a consistência de um sistema.
Entre Eles nunca houve palavras interditas: comunista, revolta, liberdade, orgasmo, transe... Têm o gosto infantil de as usar e de as repetir como se fossem eles a inventá-las e a usá-las pela primeira vez.
Mas, foi precisamente por algumas palavras serem tóxicas que se golpearam, encurralaram e envenenaram... Um dia, Ela chegou a desejar que Ele lhe escrevesse um poema de amor apesar de dizerem que os poemas sobre a arte do amor são ridículos e estão fora de moda. Nunca o fez. Ainda bem, talvez porque se realmente ele o tivesse feito, Ela sentiria que o seu amor,ou qualquer coisa de intenso que o liga a si, era pequeno demais para caber inteirinho num punhado de linhas poéticas. E tudo se desmoraria sobrando uma sensação de vazio...Entrega-se à ideia de que o seu amor, ou seja lá o que for de irresistivel que os une é impossível de ser demonstrado com palavras, virgulas, pontos finais e regras gramaticais. A verdade absoluta que impera e que Ela ama religiosamente é o “Nós” que construiram com a argamassa da sua saliva, suor, lençol, pele, carne, mente, nudez, silêncio e sangue.
Entre Eles nunca houve palavras interditas: comunista, revolta, liberdade, orgasmo, transe... Têm o gosto infantil de as usar e de as repetir como se fossem eles a inventá-las e a usá-las pela primeira vez.
Mas, foi precisamente por algumas palavras serem tóxicas que se golpearam, encurralaram e envenenaram... Um dia, Ela chegou a desejar que Ele lhe escrevesse um poema de amor apesar de dizerem que os poemas sobre a arte do amor são ridículos e estão fora de moda. Nunca o fez. Ainda bem, talvez porque se realmente ele o tivesse feito, Ela sentiria que o seu amor,ou qualquer coisa de intenso que o liga a si, era pequeno demais para caber inteirinho num punhado de linhas poéticas. E tudo se desmoraria sobrando uma sensação de vazio...Entrega-se à ideia de que o seu amor, ou seja lá o que for de irresistivel que os une é impossível de ser demonstrado com palavras, virgulas, pontos finais e regras gramaticais. A verdade absoluta que impera e que Ela ama religiosamente é o “Nós” que construiram com a argamassa da sua saliva, suor, lençol, pele, carne, mente, nudez, silêncio e sangue.
19 de setembro de 2007
Ícaros
Domingo à tarde, incham as ruas da cidade com magotes de casais desenxabidos. Vêm empanturrar-se nas pastelarias e adquirir os últimos artigos em promoção e da última moda ou simplesmente deambularem como moscas tontas para matarem à paulada o tempo. Depois à frente da TV afundam-se no sofá de couro (ou imitação vulgar).
Entre a garfada de esparguete e o golo de vinho tinto, os espectadores, perante estes tempos inimagináveis de atrocidades, soltam comentários esganiçados de consternação e piedade perante as imagens de famintos ossudos e injustiçados em poças coalhadas de sangue. Criticam o gatuno do árbitro ou o corrupto do político beijoqueiro de velhotas reumáticas e miúdos de bochechas escarlates... A noite do telejornal é assim rica em emoções fortes! E afinal não é do que andamos todos à procura?
Não importa a espécie, todos querem de qualquer modo, se sentirem e VIVEREM. O problema é que se uns se contentam em colher migalhas de uma felicidade amorfa e, nesta existência suada e imprevisível caminham de sorrisos radiantes, atropelados entre os dentes, simultaneamente que os olhinhos luzem nas órbitas por qualquer conquistazinha. Outros estão condenados à ambição desmedida de Ícaro, a de se quererem elevar mais alto independentemente dos gritos agonizantes e fatais que daí possam resultar. Alimenta-os a necessidade de sentirem o sangue a escorrer espesso, ardente e sufocante nas veias, por quererem atingir por um instante o auge.
Ter medo afinal de quê? Não temos já um determinado prazo de validade tatuado em brasa desde a concepção? Se vamos morrer de qualquer modo porque não com a retina engasgada de doces e suculentas imagens e a com a nossa carne exalando histórias prenhes de néctares e perfumes????????????
Entre a garfada de esparguete e o golo de vinho tinto, os espectadores, perante estes tempos inimagináveis de atrocidades, soltam comentários esganiçados de consternação e piedade perante as imagens de famintos ossudos e injustiçados em poças coalhadas de sangue. Criticam o gatuno do árbitro ou o corrupto do político beijoqueiro de velhotas reumáticas e miúdos de bochechas escarlates... A noite do telejornal é assim rica em emoções fortes! E afinal não é do que andamos todos à procura?
Não importa a espécie, todos querem de qualquer modo, se sentirem e VIVEREM. O problema é que se uns se contentam em colher migalhas de uma felicidade amorfa e, nesta existência suada e imprevisível caminham de sorrisos radiantes, atropelados entre os dentes, simultaneamente que os olhinhos luzem nas órbitas por qualquer conquistazinha. Outros estão condenados à ambição desmedida de Ícaro, a de se quererem elevar mais alto independentemente dos gritos agonizantes e fatais que daí possam resultar. Alimenta-os a necessidade de sentirem o sangue a escorrer espesso, ardente e sufocante nas veias, por quererem atingir por um instante o auge.
Ter medo afinal de quê? Não temos já um determinado prazo de validade tatuado em brasa desde a concepção? Se vamos morrer de qualquer modo porque não com a retina engasgada de doces e suculentas imagens e a com a nossa carne exalando histórias prenhes de néctares e perfumes????????????
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